Entrevista

Natacha Duarte: Quando a Dor se Transforma em Voz

Entre a perda, a cura e a missão de ajudar os outros, a artista apresenta VOAR, o primeiro disco onde vulnerabilidade e esperança caminham lado a lado.

Há histórias que nascem da dor, mas encontram na arte o seu lugar de luz. VOAR, o primeiro disco de Natacha Duarte, é exatamente isso: um manifesto íntimo sobre saúde mental, perda e reconstrução, inspirado pela partida do irmão e pela missão que abraçou desde então — ajudar quem carrega silêncios pesados demais. Entre melodias que tocam o íntimo e palavras que abraçam, Natacha apresenta um trabalho que é tanto pessoal quanto universal: um convite a sentir, a nomear e, finalmente, a voar.

À conversa com Natacha Duarte

Natacha Duarte. Foto DR

O «VOAR» nasce de uma história profundamente pessoal. Em que momento
percebeste que estas emoções — dor, ausência, reconstrução — tinham de se
transformar em música?

Na verdade, mais do que um momento, foi um processo. Houve uma altura em que,
para mim, estar bem significava estar a funcionar. Ou seja, trabalhar, cumprir, não
desmoronar em público. Simplesmente, um dia apercebi-me que isso não era estar
bem, era sobreviver.
Neste contexto, a música entrou quando as palavras que eu precisava de dizer não
tinham sítio para ir. Este álbum não foi uma decisão artística, foi quase um instinto.
Precisava de dar nome ao que estava a sentir antes de conseguir atravessá-lo. Foi um
desabafo e uma vontade gigante de me querer sentir diferente.

Este álbum não foi uma decisão artística, foi quase um instinto.


Natacha Duarte – Voar [Official Music Video] – o sentimento na música

O álbum é descrito como «um manifesto artístico sobre vulnerabilidade e saúde
mental». Como foi o processo de transformar capítulos tão íntimos da tua
vida em canções que agora partilhas com o público?

Acima de tudo, foi assustador e libertador. Há canções neste álbum que escondi
durante muito tempo. Emoções, situações. Escondi acima de tudo de mim. Não porque
não estivessem prontas, mas porque eu não estava pronta para que alguém as ouvisse,
ou para assumir que aquilo tinha acontecido comigo.
O que me ajudou foi perceber que não estava a partilhar a minha dor, estava a
partilhar uma linguagem. A par disso, percebi que havia pessoas que precisavam dessa
linguagem tanto quanto eu.

Naquela altura, o meu irmão ensinou-me que o tempo é curto.”

Tens uma ligação muito especial à MakeAWish, que começou com a perda do
teu irmão. De que forma essa experiência moldou a tua missão enquanto
artista e a forma como te relacionas com quem te ouve?


Naquela altura, o meu irmão ensinou-me que o tempo é curto. Que não vale a pena
guardar as coisas para quando estivermos prontos. Infelizmente, ele nunca teve essa
opção. Eu tenho, e isso é um privilégio que não consigo, nem quero, ignorar. Sim, a
Make-A-Wish entrou na minha vida através dele e ficou. Ficou porque acredito que a
alegria, mesmo pequena, mesmo temporária, tem poder. A música que faço tem muito
disso. A convicção de que nomear o que dói não é fraqueza nenhuma, mas sim o
primeiro passo para voltar a respirar.

Natacha Duarte. Foto DR

É a música que me deixa, a mim, mais esperançosa.”

Cada faixa do disco representa um passo numa travessia interior — de «Traumas
de Infância» a «Brilho». Qual destas canções te foi mais difícil escrever e qual
sentes que mais cura oferece a quem a escuta?

Sem dúvida, as difíceis foram duas: Traumas de Infância e Terapia. Por particularidades
diferentes, mas motivos iguais. Precisamente, ambas me obrigaram a olhar ao espelho
e ver-me, na totalidade e em profundidade.


Por um lado, Traumas de Infância foi poder ir fundo e perceber que os meus traumas
existem, que ainda estão lá. Poder falar com a minha criança interior e dizer-lhe «está
tudo bem, agora podes ir brincar.» Assumir que sou fruto dela foi importante.
Por outro lado, Terapia foi uma música necessária. Escrevi-a numa semana em que tive
pela primeira vez um ataque de ansiedade que se tornou um ataque de pânico. Falar
sobre isso assustou-me, mas eu sabia que precisava. Precisava de tirar poder a esse
acontecimento e dar-lhe outra perspetiva.


Sobre a música que mais cura oferece, estou indecisa entre Abraço e Brilho. Sinto que
Brilho é um hino autêntico de força. Um lembrete de que somos capazes, que não
estamos sozinhos, que temos pessoas à nossa volta que nos querem bem, e que
caminham connosco. É a música que me deixa, a mim, mais esperançosa. É um assumir
que não foi sempre bonito, mas não estive sozinha. E foram essas pessoas que me
ajudaram a trazer de volta o meu brilho.

E que resistência não é o mesmo que dureza”

Dizes que «a dor precisa de ser sentida». O que aprendeste sobre ti própria
ao permitir-te sentir, nomear e transformar essa dor em arte?

Acima de tudo, aprendi que sou mais resistente do que pensava. E que resistência não
é o mesmo que dureza.
Além disso, aprendi que posso estar completamente «no chão» e continuar a criar.
Aprendi que a dor que não é nomeada tem muito mais poder do que a dor que é dita
em voz alta. E aprendi, talvez o mais importante, que não tenho de estar curada para
ajudar alguém a caminhar ou a começar.

Natacha Duarte – Fnac Sessions. Foto DR

Quero é que saiam com menos peso, daquele que ninguém vê.”

Em julho vais apresentar o álbum nas FNAC Sessions por todo o país. O que
esperas que o público leve consigo depois de te ouvir ao vivo — e que tipo
de abraços esperas receber, depois do desafio que lançaste nas redes?

Nos concertos, se só puderem levar uma coisa, que seja a sensação de que não estão
sozinhos naquilo que sentem. E que está na hora de dar nome às coisas e de falar
sobre elas. Não preciso que saiam a cantarolar (se bem que seria muito bom sinal).

Quero é que saiam com menos peso, daquele que ninguém vê.
Recentemente, lancei nas redes sociais o desafio de as pessoas me enviarem vídeos a
abraçarem-se a si próprias. Sem qualquer expectativa, mas com uma vontade enorme
que chegasse da forma certa às pessoas. A verdade é que recebi mais de 155 vídeos de
pessoas de norte a sul e ilhas. Houve quem chorasse a dar esse abraço. Muitos
sentiram-se desconfortáveis. O vídeo com a montagem dos abraços ficou incrível e
teve imensa participação.
Ao mesmo tempo, chegaram muitas mensagens a agradecer por ter feito esse pedido,
porque já precisavam de o ter feito há muito tempo. Achei lindo. Mesmo bonito, com
tanta verdade.

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