Quando a Fantasia Revela a Verdade
Flávia Santos analisa o estudo da Gleeden e o que ele expõe sobre o desejo feminino.
Em maio, mês dedicado a combater a homofobia, a transfobia e a bifobia, um novo estudo da Gleeden expõe um dado que desconstrói certezas: a maioria das mulheres já fantasiou com outras mulheres, mesmo identificando‑se como heterossexuais. O fenómeno, longe de ser exceção, revela uma sexualidade feminina mais fluida, curiosa e complexa do que os rótulos permitem admitir — e é esse território que esta conversa procura iluminar.

O estudo revela que 71% das mulheres já fantasiou com outras mulheres. O que é que este dado nos diz sobre a relação entre identidade sexual e desejo?
O que o estudo nos mostra é uma realidade que sempre existiu. Como todos os seres
humanos somos bissexuais de nascimento, esse lado latente, esses desejos existem
dentro de nós. Algumas pessoas tratam de sufocar essas fantasias. Tratam de sufocar
esses desejos, ou há época da vida em que isso não está tão presente. Mas isso não
significa que nós não nos excitamos com a possibilidade de ter essas fantasias
homossexuais.
Todos podemos sentir prazer ou desejo tanto com homens como com mulheres, sem
que isso necessariamente diga que é uma orientação sexual, porque as fantasias
permitem deixar a mente ir a lugares que muitas vezes o corpo não quer visitar. Ou
que você não autoriza o corpo a visitar.
Por que razão tantas mulheres heterossexuais — 57% no estudo — admitem fantasias com outras mulheres? Há fatores culturais, emocionais ou relacionais que ajudam a explicar este fenómeno?
As fantasias, nós temos em alguma medida. Um homem, quando tem fantasias
homossexuais, ele trata de as rejeitar, inclusive com violência, ou matar. Muitas das
explicações da homofobia é por conta disso. É um desejo sexual que está aí presente,
uma fantasia, e pelo facto de que a pessoa não tolera essa realidade, ela trata com
rejeição com ódio e com ataques.
Agora todos nós, sim, temos esses desejos presentes. Todos, em alguma medida, em
sonhos na noite quando não se pode controlar o consciente, em momentos em que se
vê uma outra pessoa ou um outro corpo que nos chama a atenção e de alguma
maneira sentimos que isso nos desperta algo mais do que uma curiosidade, é uma
realidade.
É muito mais fácil e muito melhor que possamos viver com as nossas fantasias e os
nossos desejos do que ter medo que essas fantasias sejam determinantes do nosso
comportamento e das nossas decisões. Ademais, o ser humano resolve na fantasia o
que não consegue resolver na realidade.

“São vários fatores que vão influenciando o desejo“
A sexóloga refere que a orientação sexual é um caminho em construção. Como é que esta fluidez se manifesta na vida adulta, especialmente em mulheres casadas com homens, como mostra o estudo?
A orientação vai se construindo com as experiências, as aprendizagens, a própria
curiosidade, o ambiente. São vários fatores que vão influenciando o desejo. Essas
primeiras experiências de descoberta do corpo infantil é tudo isso vai construindo o
desejo de cada um de nós, mas não significa que nunca teremos mais presente a
bissexualidade dentro de nós. Sempre vai estar aí.
A decisão, ou não, de explorar essas fantasias e de as viver na prática é um outro passo
que a pessoa toma de forma consciente na sua vida. Vamos ter pessoas que vão passar
toda a vida sabendo que têm essa fantasia dentro de si e vão negociar com isso. Isto é,
não têm o menor interesse de as colocar em prática, e vão deixar que as fantasias se
manifestem cada vez que se sinta excitado, ou cada vez que se masturbe, cada vez que
tenha sexo.
Outras pessoas vão dizer – Quero explorar essas fantasias, e vão atrás da realização das
fantasias e às vezes descobrem-se homossexuais, bissexuais, ou realmente
heterossexuais. Em outros casos, isso se torna tão assustador, tão amedrontador, que
vão tratar de sufocar em si mesmos. Vão tratar de negar ou fazer de conta que não
existe. E aí entram os casos de homofobia, entram os casos de rejeição ao próprio
desejo, e até mesmo de rejeição do próprio sexo, com medo de entrar em contacto
com essas fantasias.
Mas a gente tem de lembrar que a fantasia costuma ser esse lugar onde a mente vai,
mas o corpo não tem intenção de visitar. Um lugar livre para ser explorado, um lugar
livre para sentir sem medo que isso seja um determinante de vida e de desejos.
De que forma plataformas como a Gleeden criam espaço para que as mulheres explorem o desejo com mais autonomia e menos julgamento?
Plataformas como a Gleeden dão às mulheres a oportunidade de explorar essas
fantasias. Cada vez mais, estamos vendo mulheres nos 50 e 60 anos que dizem – “Essa
fantasia sempre esteve dentro de mim. Porque não agora que me sinto segura, que me
sinto autónoma, que já não me importa o que dizem as pessoas, porque não explorar
isso e ver como é de verdade? Porque não deixar sentir no meu corpo o que na
fantasia já habita há muito tempo? “. É o desejo de explorar.
Hoje em dia, existe toda uma indústria de películas pornográficas feitas por mulheres,
para mulheres. Em que o contacto da pele, o toque, o estímulo das partes do corpo
que de verdade nós gostamos são vistas, nesse momento do erotismo feminino, nestas
películas pornográficas.
Plataformas como a Gleeden dão-nos a possibilidade de explorar, de ver qual é o meu
desejo? O que é que eu quero vivenciar, e o que é que eu quero ainda provar na minha
vida?

“…estamos numa altura em que estamos a
lutar não só contra a homofobia, mas também a violência contra as mulheres…”
Ainda existe muito tabu quando falamos de fantasias femininas, sobretudo entre mulheres heterossexuais. O que é que continua a impedir conversas mais abertas sobre o tema?
Estas fantasias ainda são tabu, porque no patriarcado nós não podemos deixar a
mulher ser autónoma sexualmente. Então sempre, no mundo patriarcal machista,
controlar o desejo feminino é uma maneira de controlar a mulher.
Pôr esse desejo como algo patológico, como algo proibido, sujo e doente é uma forma
de fazer a mulher se sentir em culpa e ter essa mulher sempre controlada.
Normalmente, no mundo, já não há muito interesse de pessoas autónomas
sexualmente porque a sexualidade, orgasmo significa liberdade. Se pensarmos bem,
não há nada mais libertador do que o clítoris, porque quando uma mulher descobre
que é capaz de sentir prazer, e se dar prazer sem o homem, os homens enlouquecem
com isso. Então no mundo patriarcal, que uma mulher conheça o seu clitóris, ou se
masturbe ou tenha desejos homossexuais, isso para um homem num mundo machista,
é assustador. E não há nada mais libertador e poderoso do que o clítóris. O clítoris
assusta porque liberta.
Que impacto pode ter este tipo de estudo na forma como entendemos a sexualidade feminina e na luta contra a homofobia, a bifobia e a invisibilidade das experiências queer?
Este tipo de estudo é fundamental porque estamos numa altura em que estamos a
lutar não só contra a homofobia, mas também a violência contra as mulheres.
Ser mulher já é ser vulnerável. E ser mulher homossexual, é um risco dobrado. E
muitas mulheres que têm fantasias e que quiseram experimentar esse outro lado da
sua sexualidade, inibem-se por medo da violência, da discriminação.
Por isso, é muito importante dar visibilidade a estudos como este, trazer estas
conversas e poder ter um espaço seguro para poder conversar, entender e decidir.



