Débora Figueiredo: Quando Cuidar dos Outros se Torna um Ato de Transformação
A fundadora do The Blossom Club está a democratizar o acesso à saúde mental — e a lembrar-nos que florescer é um direito, não um privilégio.
A desigualdade no acesso à saúde mental continua a marcar gerações. Débora Figueiredo viu isso de perto e respondeu com ação: consultas de Psicologia a preços sociais, parcerias com instituições vulneráveis e um compromisso claro com o bem‑estar coletivo. O The Blossom Club nasce para mudar o sistema, uma pessoa de cada vez.

Nesta conversa com Débora Figueiredo, abrimos espaço para a sua visão, o seu percurso e a sensibilidade que imprime em cada projeto. As perguntas que se seguem procuram iluminar o seu processo criativo, revelar a mulher por detrás da obra e aproximar o leitor da verdade que a move — sempre com a delicadeza e a força que definem o seu universo.
O que a levou a perceber que o acesso à saúde mental precisava de ser reinventado em Portugal — e como nasceu, na prática, o The Blossom Club?
“O grande objetivo sempre foi este: melhorar a qualidade de vida das pessoas,…”
Nunca pensei neste projeto como reinventar um serviço. Foi um percurso mais orgânico, movido por um propósito de fazer algo que me desse verdadeiro prazer — e para mim isso é dar às pessoas oportunidade de conhecerem a sua melhor versão, independentemente do caos que já tenham vivido, ou até de situações mais traumáticas. Há sempre situações pessoais que acabam por afetar o trabalho, e mais cedo ou mais tarde, tudo o resto. Quando trabalhamos o que está por trás disso — o sistema de crenças com que cada um chega — a foma como uma pessoa se relaciona consigo própria muda. A autoestima muda. E é aí que cada um, de facto, conhece uma versão aprimorada de si. Há uma razão para isto não se resolver com uma única especialidade, e não é só intuição. A psique humana não funciona por compartimentos — funciona por sistemas que se influenciam constantemente uns aos outros. O corpo guarda aquilo que a mente ainda não conseguiu processar; uma relação mal resolvida altera literalmente a forma como dormimos, comemos, trabalhamos. Quando tratamos só o sintoma mais visível — a ansiedade que aparece, o problema alimentar, o esgotamento no trabalho — sem olhar para o que o está a alimentar por baixo, conseguimos alívio, mas raramente mudança que se sustente no tempo. Foi perceber isto, com muita clareza, que me fez saber que um único serviço nunca seria suficiente para cumprir o que me propunha fazer.
O grande objetivo sempre foi este: melhorar a qualidade de vida das pessoas, olhando para elas como sistemas inteiros, não como sintomas a tratar um de cada vez. E para isso, um único serviço seria sempre demasiado restrito — a vida de ninguém cabe numa só especialidade. O projeto começou, na verdade, numa fase muito mais introspetiva do que se possa imaginar agora, a olhar de fora. Achei que não valia a pena esperar mais para começar algo que sabia, com certeza, que queria fazer — e comecei com uma única psicóloga. Hoje já somos dez profissionais de saúde, entre psicologia, psiquiatria, nutrição e terapeutas corporais, dois anos depois de termos começado. Para mim, isso não é só crescimento — é confirmação de que a procura existe, de que a necessidade é real, e de que estamos aqui também para ajudar a traçar esse caminho e acompanhar quem nos procura,
sobretudo os mais jovens que precisam de ajuda.
As consultas de Psicologia a preços sociais são um gesto raro no setor. Como equilibra sustentabilidade, impacto e esta decisão de valores?
“Tratamos com frequência a saúde mental acessível como caridade…”
Sustentabilidade e impacto nunca competiram entre si, por muito que pareça essa a tensão óbvia — e essa perceção de conflito é, em si mesma, parte doproblema que temos em Portugal. Tratamos com frequência a saúde mental acessível como caridade, como algo que uma empresa faz apesar do seu modelo de negócio, não através dele.
Lembro-me de uma conversa, ainda no início, com alguém que ligou a perguntar o preço, agradeceu, e desligou sem marcar. Não disse que não tinha dinheiro, mas percebemos pela forma como a conversa terminou que teria sido esse o motivo. Foi mais ou menos nessa altura que percebi que o preço não podia ser uma variável normal de negócio para nós. Tínhamos de arranjar alternativa e uma fórmula justa que funcionasse.
Por isso, desde o início, vejo o modelo de forma diferente. Em vez de o preço social ser uma exceção pontual, sujeita à boa vontade de um determinado mês, ele é parte da estrutura do negócio — sustentado pelo equilíbrio do conjunto dos serviços, não isolado à parte. Na prática, isso significa trinta euros por consulta de psicologia, público e garantido, sem exceções nem letra pequena. Não é uma promoção, é uma condição permanente.
Decidimos isto porque sabíamos, desde o primeiro dia, que o valor de uma consulta não podia ser o motivo de alguém desistir de pedir ajuda — sobretudo quando é precisamente nos momentos de maior dificuldade financeira que essa ajuda mais falta faz. É uma decisão de valores, sim. Mas é, sobretudo, uma decisão de gestão bem feita: só se consegue ser generoso de forma consistente quando isso está desenhado para durar, e não para depender de um bom trimestre.

O projeto tem parcerias com instituições muito distintas, dos estudantes às Aldeias de Crianças SOS. Que necessidades comuns encontrou nestes públicos?
“No caso dos mais jovens, e sobretudo dos universitários, há um pano de fundo muito importante.“
No caso dos mais jovens, e sobretudo dos universitários, há um pano de fundo muito importante. Eles cresceram numa geração completamente diferente da minha — a comparar-se, todos os dias, com uma versão editada da vida de milhares de pessoas ao mesmo tempo. Isso muda a forma como se sentem em relação a si próprios de uma forma que a minha geração (millennial) nunca teve de gerir. A ansiedade que vejo hoje não é só “estudar dá stress” — é a sensação constante de estar em atraso em relação a uma vida que, na maior parte das vezes, nem sequer é real. Depois há o pós-pandemia, que ainda não terminamos de compreender. Uma geração que passou anos formativos sem o treino social mais básico — estar num espaço com outra pessoa, discordar cara a cara, aprender a lidar com o desconforto de uma conversa difícil. Isso aparece agora nas consultas como dificuldade relacional. Por isso fazemos uma coisa que não está escrita em lado nenhum como política: quando alguém chega até nós fora do enquadramento formal dos apoios sociais, não o deixamos sem resposta. Encontramos forma de garantir que o acompanhamento continue. Não é por termos um plano brilhante para isso, mas porque interromper um processo a meio nos parece sempre pior do que nunca o ter começado.
Enquanto Diretora de Recursos Humanos, que sinais vê diariamente que mostram a urgência de democratizar o bem estar emocional?
“Isso vê-se já no que as pessoas pedem hoje: mais tempo, sobretudo.“
Respondo a isto como trabalhadora, porque comecei a trabalhar muito cedo, e o que vejo vem de vinte anos a observar, também em contacto direto com colegas, não de um cargo. Vejo uma preocupação que tem vindo a crescer nas empresas, mas que ainda tem um caminho longo pela frente. Há setores mais avançados, outros que precisam ainda de muita formação nesta área, e a diferença entre setores é real. É precisamente por isso que, além das consultas, também levamos formação a gestores e formações personalizadas às empresas com quem trabalhamos. Durante décadas, as empresas mediram tudo — produtividade, absentismo, satisfação interna — menos a única variável que explica todas as outras. Reagia-se ao sintoma, nunca à causa. Uma baixa médica, uma saída inesperada, nunca a pergunta de fundo: porque é que esta pessoa deixou de conseguir continuar assim? Hoje começamos, finalmente, a fazer essa pergunta. E acho que o futuro das empresas se vai jogar exatamente aqui, não em quem oferece mais benefícios, mas em quem entende que cuidar das pessoas não é um custo a gerir, é a para queo resto funcione.
Isso vê-se já no que as pessoas pedem hoje: mais tempo, sobretudo. Tempo de qualidade com os filhos, tempo de qualidade fora do trabalho, tempo para si. Antigamente vivia-se para trabalhar. Hoje trabalha-se porque se quer viver. Essa inversão não é uma moda passageira de uma nova geração — é o sinal mais claro de que algo estrutural está a mudar, e as empresas que não acompanharem vão sentir isso primeiro na retenção, depois em tudo o resto.

O The Blossom Club quer chegar sobretudo aos jovens. Que mudanças acredita que acontecem quando cuidamos da saúde mental mais cedo?
“Havia ali uma liberdade, mas também uma presença diferente.“
Quando era miúda, ninguém à minha volta falava em apoio psicológico. Não existia essa palavra no nosso dia a dia. Os problemas resolviam-se sozinhos. Ou não se resolviam e seguia-se em frente na mesma. Lembro-me de uma infância muito diferente da que os jovens vivem hoje. Combinávamos ir andar de bicicleta sem telemóvel nenhum e resultava. Confiávamos que as pessoas apareciam no sítio combinado, à hora combinada. Sabíamos que era hora de jantar quase pela posição do sol. Havia ali uma liberdade, mas também uma presença diferente. Estávamos mesmo uns com os outros. Sem um ecrã a competir pela nossa atenção.
Hoje, ao olhar para trás, sei que essa falta de apoio teve custo. Na forma como aprendi a lidar com certas coisas, na forma como me relacionei comigo própria durante anos. Não sei se teria feito diferente, sinceramente — não é assim tão simples. Mas foi capaz de ser precisamente essa falta que me deu, mais tarde, a sensibilidade para perceber o quanto isto faz falta a outra pessoa, principalmente numa idade mais jovem e em desenvolvimento.
O digital trouxe coisas que eu não tive nos anos 90 e que fazem falta de verdade: informação sobre saúde mental à distância de uma pesquisa, comunidades onde alguém sozinho numa aldeia perdida encontra outras pessoas a sentir o mesmo, formas de pedir ajuda sem ter de o dizer olhos nos olhos, o que para muita gente é o primeiro passo possível. Isso não existia quando eu era miúda, e teria feito diferença.
O que mudou é a quantidade e a intensidade. Há a ideia de que a vida está mais fácil, e em muitos sentidos está. Mas isso esconde uma sobrecarga que a minha geração nunca teve de gerir — comparação constante, validação medida ao segundo, a vida editada de outra pessoa sempre ali, a um dedo de distância. O corpo não foi feito para aguentar este volume de estímulo e isso tem custo. Vejo-o na forma como a ansiedade aparece hoje mais cedo, e de forma mais difusa, do que há vinte anos. Nunca estivemos tão ligados, e nunca foi tão fácil sentirmo-nos sozinhos ao mesmo tempo. As duas coisas coexistem. Cuidar da saúde mental cedo não é só apagar um incêndio. É dar a alguém, ainda em formação, uma forma diferente de estar no mundo — antes que os maus padrões tenham tempo de se tornar automáticos.
O que ainda falta fazer em Portugal para que a saúde mental deixe de ser um luxo e passe a ser um direito acessível a todos?
“O que falta agora é acompanhar essa conversa com infraestrutura real…”
Falar sobre saúde mental tornou-se mais fácil, mas chegar à ajuda concreta continua difícil. E essa distância é estrutural. Geografia, capacidade financeira, tempo de espera, estes três fatores continuam a decidir, mais do que gostaríamos, quem consegue ajuda a tempo e quem não consegue. Alguém que vive no interior não tem o mesmo acesso presencial que alguém numa grande cidade. E uma lista de espera longa transforma um problema que seria simples de tratar cedo, num problema muito maior mais à frente.
Acho que já demos um passo importante em Portugal, que é o de começar a falar sobre isto sem tanto tabu. O que falta agora é acompanhar essa conversa com infraestrutura real — previsibilidade e continuidade de cuidado que já damos como garantida noutras áreas da saúde. Isso pode vir de muitos lados ao mesmo tempo: mais resposta digital para quem vive longe dos grandes centros, mais formação de quem está na primeira linha — escolas, empresas — para reconhecer sinais cedo, e modelos híbridos, como o que tentamos construir no Blossom, que aproximam o preço da realidade de quem precisa.
Resolve-se com muitas pequenas decisões, tomadas por muita gente ao mesmo tempo, não à espera de uma solução única e perfeita.

No fim, fica a certeza de que ouvir Débora Figueiredo é entrar num território onde o cuidado se transforma em gesto, onde cada história encontra espaço para respirar e onde a humanidade se revela nos detalhes. Esta conversa não encerra o seu universo — apenas o abre, convidando o leitor a continuar a descobrir a força tranquila, a escuta ativa e a visão transformadora que ela leva para cada pessoa, cada projeto, cada vida que toca.



