Entre cores que respiram liberdade e traços que parecem mover-se sozinhos, Pama afirma-se como uma das vozes mais singulares da arte urbana contemporânea.
Na sua obra, o quotidiano transforma-se em narrativa visual, e cada mural revela tanto a pulsação das ruas como a inquietação íntima de quem cria para não deixar o mundo ficar quieto.
Nesta entrevista, o artista abre-nos a porta do seu processo, das suas raízes e da visão que o move — sempre com a mesma autenticidade que marca cada peça que assina.
O artista, uma das vozes mais singulares da arte urbana contemporânea.

O tema
“Olha por Mim” parece nascer de um momento de introspeção. Que circunstâncias
pessoais ou artísticas deram origem a este tema?
Pessoalmente, este tema é a minha forma de combater a partida de quem amo. É a
mudança que a vida terá, a partir daquele momento de dor. São as minhas armas para
combater uma guerra interior. Desde muito cedo que combato essas batalhas. Talvez por
isso não me considere uma pessoa social.
Em termos artísticos, a origem deste tema é conseguir ajudar as pessoas que ouvem o tema
e precisam também de encontrar as ferramentas necessárias, e o caminho, para a mudança.
É uma forma de combater também a minha ausência social para quem me conhece e não
conhece.

A identidade artística
Este single marca uma fase mais madura do teu percurso. O que sentes que mudou
na tua identidade artística desde os primeiros trabalhos?
Nesta altura da minha vida, deixei de ser um rebelde, deixei de ser aquela pessoa que está
contra tudo e todos- Já não dou importância a momentos e coisas que não me ensinam
nada, e que me podem transformar em alguém que não sou nem quero ser.
Em todos os meus trabalhos, eu acrescento algo mais na vida, e isso faz-me mudar, faz-me
olhar e perceber o que quero para mim.
A vida não anda em volta das músicas que componho, mas ajudam. Por vezes, são a minha
ferramenta para alcançar ou ultrapassar um objectivo.

A viagem musical
A colaboração com o João Só é um ponto forte deste lançamento. Como foi o vosso
processo criativo em estúdio e o que mais te surpreendeu nesta parceria?
O facto de o João Só ter aceitado colaborar neste meu trabalho foi esplêndido. Fiquei muito
lisonjeado e feliz. Quando fechámos o nosso acordo, senti que ia nascer uma nova etapa
artística na minha carreira. A frase que escrevi nos meus apontamentos foi: “- É agora…”
O Estúdio Zeco do João Só é um templo de titãs. Mal entrei, senti as energias dos enormes
nomes da música em Portugal. Queria muito fazer também parte daquelas paredes, como
se fosse um troféu daquele templo.
Gravar com o João no estúdio foi uma experiência fantástica, e difícil também. O João estava
em tournée, e a gravar mais artistas e, por uma questão de logística, tive de gravar algumas
vozes no Submarine Sounds Studios em Coimbra, um estúdio que já me é familiar, com o
João Santiago, que não deixa passar nada, é tudo ao pormenor. Depois, o João Só tratou de
toda a produção dos temas.
Para mim, o trabalho do João Só foi uma explosão de sentimentos. Ele parecia entrar no
meu cérebro e entender o que idealizava para a música. Foi incrível perceber que o método
de trabalho se torna realmente diferente, e isso mostra como o João Só é um grande músico
e produtor português. Foi muito gratificante para mim fazer esta viagem com ele.

A cinstrução de um Universo
O teledisco acompanha a narrativa emocional da música. Que mensagem querias
transmitir visualmente e como foi construir esse universo?
A mensagem era simples: não ficar para trás. Olhar o caminho e encontrar forma de o
percorrer. No final, a paz chega, e terás toda ajuda possível oferecida pelo mar. Eu adoro
caminhar, é uma terapia para mim. E amo o mar, porque transforma qualquer pessoa que se
deixe levar por aqueles sons. Por isso, este universo tinha de aparecer e ser mostrado no
teledisco. O que mais quero transmitir é a forma natural de caminhar por sítios
maravilhosos, que nos hipnotizam e nos fazem perder a noção do tempo.

Dimensões de influência
Tens um percurso multifacetado — vocalista, guitarrista, percussionista, compositor.
Como é que todas essas dimensões influenciam a forma como escreves e interpretas?
A Viola D’Arco foi o meu primeiro instrumento. Por insistência da minha primeira professora
de música, Helena Paula, aprendi a tocar Viola D’Arco e foi assim que apareci em público a
primeira vez.
Em seguida, veio a Voz. Ganhei um concurso no colégio onde estudava, e montámos logo
uma banda para tocar covers de um dos grandes estilos de músicas que se ouviam na
altura, o Grunge.
A seguir, vieram as teclas, o que me deu os tons iniciais da composição. A guitarra apareceu
de surpresa, e foi com ela que compus tudo o que lancei e ainda não lancei.
A percussão, em seguida, tornou-me um músico profissional e, após vários projetos com
bandas, lancei-me numa carreira a solo, com dois discos gravados. Pelo meio, também
ganhei alguns concursos, e participei o The Voice Portugal. Todos os instrumentos
musicais, não só influenciaram a minha vida artística, como também fazem parte da minha
vida pessoal. O ritmo está casado com a melodia desde sempre.
No fim, fica a sensação de que cada música do Pama é mais do que um tema: é um gesto de coragem. Há quem escreva para entreter, e há quem escreva para sobreviver — ele faz as duas coisas, mas nunca esquece que a arte só vale quando nasce verdadeira. Entre batalhas silenciosas, caminhos à beira‑mar e a vontade de continuar a crescer, Pama segue em frente com a serenidade de quem já aprendeu que a dor não é o fim, apenas o ponto onde a luz começa a entrar.



