Entrevista

Entre o Afeto e o Limite: A Arte de Educar Segundo Bárbara Ramos Dias

Da vida real do consultório às histórias de casa, a psicóloga mostra como um “não” pode transformar relações e fortalecer vínculos.

Dizer “não” pode ser o gesto mais difícil — e, paradoxalmente, o mais amoroso — na vida de um pai. É essa a bússola que guia o novo livro de Bárbara Ramos Dias, psicóloga com mais de 25 anos de experiência e uma das vozes mais escutadas na parentalidade em Portugal.

Entre histórias reais de consultório e a sua vivência como mãe de “três doces pestinhas”, Bárbara desmonta culpas, cansaços e expectativas irreais, lembrando que educar não é ceder, é cuidar.

Dizer NÃO é Um Ato De Amor de Bárbara Ramos Dias. Foto DR

Nesta conversa, mergulhamos no coração do seu trabalho e no poder transformador de um “não” dito com afeto.

Quando o “não” protege mais do que o “sim”

O que é que, na sua experiência clínica, torna tão difícil para muitos pais dizer “não”? A culpa, o cansaço e a ideia do “bom pai” surgem muito no seu discurso — como é que estes fatores moldam a parentalidade atual?

Hoje sinto que os pais vivem num lugar muito exigente. Amam muito, querem fazer melhor do que as gerações anteriores, querem estar presentes… mas estão profundamente cansados. E quando estamos cansados, tudo fica mais difícil. Até aquilo que sabemos que é importante.

Muitas vezes, os pais sabem que deviam dizer “não”, mas dizem “sim” para evitar o conflito, para não lidar com a reação do filho, ou simplesmente porque naquele momento já não têm energia. E depois aparece a culpa. Aquela voz interna que diz: “Se calhar fui duro demais… se calhar devia ter cedido…”

E isto é muito alimentado por uma ideia que foi crescendo de forma quase silenciosa. A ideia de que um “bom pai” é aquele que está sempre disponível, sempre paciente, sempre compreensivo. E isso é bonito… mas não é realista.

Porque educar também implica limites. Implica dizer “não”. Implica, às vezes, aguentar o desconforto, o deles e o nosso.

Penso que muitos pais se perderam um bocadinho aqui: entre querer fazer tudo bem… e esquecerem-se de confiar em si próprios.

Bárbara Ramos Dias. Foto DR

Culpa, cansaço e a pressão de ser “o pai perfeito”

O livro apresenta-se como “um abraço para pais cansados”. Que sinais identifica no consultório que mostram que os pais estão emocionalmente exaustos?

Há um tipo de cansaço que não se vê logo… mas sente-se muito. São pais que chegam e dizem coisas como: “Eu já não sei o que fazer.” ou “Tudo é uma luta.” ou ainda “Sinto que estou sempre a negociar.” E isso diz muito.

Vivem num estado quase constante de gestão – gestão de emoções, de comportamentos, de rotinas… e isso vai desgastando. Sentem que têm de explicar tudo, justificar tudo, estar sempre disponíveis.

E depois há uma dor mais profunda, que às vezes aparece mais baixinho: a sensação de estarem a perder o controlo… ou até a relação com os filhos.

Mas há algo que me toca sempre: mesmo cansados, estes pais continuam a tentar. Continuam a procurar ajuda. Continuam a querer fazer diferente.

E isso, para mim, já é um sinal enorme de amor… e de esperança.

A úktima obra da autora. Foto @barbararamosdiaspsicologa

Como educar sem medo de desagradar

Dizer “não” é um ato de amor, mas também é um ato de coragem. Como é que os pais podem começar a estabelecer limites sem medo de afastar os filhos?

Sinto que começa mesmo por dentro. Por percebermos que dizer “não” não afasta os filhos, dá-lhes segurança. Às vezes parece o contrário, porque no momento há reação, há frustração, há resistência… mas isso faz parte.

Depois, na prática, não é preciso mudar tudo de uma vez. É até melhor não o fazer.

Começa-se em pequenos momentos. Um “não” que já foi dito e que se mantém. Uma regra que não se negocia naquele dia. E há uma coisa que ajuda muito: conseguir separar a emoção da decisão.

Ou seja, eu posso dizer: “Eu sei que querias muito… eu percebo que estás zangado…” e, ao mesmo tempo, manter o limite: “mas hoje não.”

E isto faz toda a diferença. Porque o filho sente-se compreendido… mas também orientado. E, aos poucos, os pais começam a perceber que não estão a afastar –  estão a construir uma relação mais segura.

O papel do afeto na disciplina

O livro nasce de mais de 25 anos de histórias de consultório e também da sua experiência como mãe de “três doces pestinhas”. Que aprendizagens pessoais foram decisivas para este livro?

Talvez a mais importante tenha sido perceber que, por mais que saibamos… também somos humanos, também gritamos, perdemos o controlo, sentimos culpa e desespero.

Durante a escrita do livro, tive um período de grande cansaço emocional. E foi aí que me confrontei comigo própria – com a dificuldade em dizer “não” Não só aos filhos, mas ao trabalho, às exigências, ao ritmo. E isso foi muito transformador.

Porque me obrigou a parar e a olhar para mim com mais verdade. A perceber que não basta saber, é preciso viver aquilo que ensinamos. Como mãe, aprendo todos os dias. Aprendo que os filhos testam e ainda bem, porque é assim que crescem. Aprendo que nem sempre gostam das nossas decisões, e isso não significa que estamos a falhar.

E aprendo, sobretudo, que educar é muitas vezes isto: estar presente, ser firme… e aguentar o desconforto com amor. E nem sempre é fácil, reconheço.

A autora e psicóloga já apresentou 4 Livros. Foto DR

Crescer juntos: pais, filhos e a arte da paciência

Vivemos numa era de excesso de informação e pressão parental. Que mitos sobre parentalidade gostaria de desmontar de uma vez por todas?

Há dois que me parecem mesmo importantes. O primeiro é a ideia de que amar é evitar que os filhos sofram. Não é. Amar é ajudá-los a lidar com o que custa. Porque a vida não diz sempre “sim”… e eles precisam de estar preparados para isso.

O segundo é o mito do pai perfeito. Vivemos com muita informação, muitos conselhos, muitas opiniões… e isso pode ser muito confuso. Parece que há sempre uma forma “certa” de fazer as coisas e que temos de acertar sempre. Mas isso não existe!

Os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais reais. Presentes. Consistentes. Que, às vezes, acertam… e outras vezes ajustam. E isso é mais do que suficiente.

Como educar sem medo de desagradar

Para os pais que se sentem perdidos, culpados ou sobrecarregados, qual é o primeiro passo para recuperar energia emocional?

Eu diria que o primeiro passo é mesmo parar… e ser mais gentil consigo próprio. Perceber que não está a falhar, está cansado.

E quando mudamos esse olhar, algo já começa a aliviar. Depois, é importante simplificar. Não é preciso mudar tudo de uma vez. Nem fazer perfeito.

Basta começar com uma pequena mudança. Um limite mantido. Um “não” dito com mais segurança. Um momento em que não se cede.

E, aos poucos, os pais começam a sentir-se diferentes. Mais confiantes, mais tranquilos, mais seguros no seu papel. E isso reflete-se nos filhos. 

Há mais clareza. Mais previsibilidade. Mais ligação. E é aqui que entra a esperança,  perceber que pequenas mudanças podem transformar muito. Porque, no fundo, educar não é sobre fazer tudo certo.

É sobre estar disponível para fazer diferente… com amor e pepitas de alegria.

No fim, fica a certeza de que a parentalidade não se mede pelo número de “sim” que damos, mas pela coragem com que sustentamos cada “não” que protege, orienta e ensina. Bárbara Ramos Dias lembra-nos que educar é um caminho imperfeito, feito de tentativas, ajustes e muita humanidade — e que, mesmo nos dias mais difíceis, há sempre espaço para recomeçar com mais calma, mais clareza e um amor que sabe ser firme quando é preciso.

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